Nesse final de semana, durante 54 horas, eu participei do Startup Weekend Women Floripa. Confesso que, de início, eu não queria participar. Meu noivo, que é desse ecossistema e organizador dos eventos, me incentivou a participar. Mas só decidi ir realmente quando minha irmã, que na minha visão, precisava conhecer esse evento e universo, decidiu ir também.

Sexta feira à noite nós duas embarcamos nessa jornada, juntas. E o primeiro dia foi emocionante!

Dia 1: o início da jornada e escolha de equipes

Como a própria facilitadora Cárlei destacou, esperamos que não seja preciso edições de educação empreendedora voltada apenas para as mulheres, porque não deve haver essa segregação. No entanto, isso ainda é preciso. As mulheres precisam de empoderamento e sentirem-se seguras para errar e aprender sobre a Metodologia Lean Startup (dentre tantos outros aprendizados) sem ter que brigar por espaço com os homens (que sabemos que, infelizmente, isso ocorre na vida real).

Foram mais de 50 pitchs só no primeiro dia e eu me incluí entre eles, falando sobre o que sei fazer de melhor: marketing literário. Minha ideia não ficou entre as vencedoras para prosseguirem no dia seguinte como projetos, mas não me importei. O interessante foi subir ao palco e quebrar um de meus paradigmas (mais uma vez): falar em público.

Muita gente não sabe disso, mas não gosto de falar em público. Acredito que muita gente não gosta, mas tem que fazer. A questão é que eu não gosto simplesmente porque ficou ansiosa e isso me coloca em uma posição de vulnerabilidade. E, afinal, quem gosta de ficar vulnerável na frente de diversas pessoas que nunca viu na vida?

É muita difícil para alguém, como eu, fazer isso. (Mas retomarei a essa questão mais tarde!).

As equipes foram escolhidas no mesmo dia e eu comecei a analisar os projetos através dos olhos do meu noivo: monetização, escala, proposta de valor, valor para a sociedade… E então, acabei escolhendo com uma visão business e também coração. Foi quando eu caí no melhor grupo que eu poderia escolher.

Dia 2: educação empreendedora para mulheres e o início da Memorizze

Sebrae Santa Catarina e o Startup SC realmente conseguiram transformar a educação empreendedora em algo rápido, intenso e divertido. A minha equipe era formada por 6 mulheres entre seus 20 a 55 anos. Tínhamos 3 gerações trabalhando juntas e esse foi o nosso maior desafio!

O conflito geracional ficou claro desde o princípio em nossa equipe e, com certeza, dentre tantos outros, foi o nosso maior desafio.

Tínhamos Millennials, geração Y e baby boomers. Além disso, cada uma com uma personalidade bem marcante: designer, desenvolvedora, farmacêutica, administradora, economista e professora. E nem isso nos definia, pois nossas qualidades e defeitos iam muito além dos cursos de graduação que escolhemos cursar.

Mas algo muito mais forte nos uniu: uma proposta de valor para nosso projeto e uma proposta de vida. Nosso projeto foi o Memorizze, uma solução em forma de WebApp para auxiliar na integração da comunicação entre cuidadores de idosos com Mal de Alzheimer, mapeamento das atividades diárias (hora do banho, remédios, alimentação, etc.) e, o diferencial competitivo: um repositório para acionar a memória afetiva do paciente, com jogos, música, arte e fotos.

O dia foi exaustivo, através da validação do problema e solução. Aqui, as integrantes mais velhas foram essenciais para nos mostrar a realidade por detrás do desafio do familiares com pessoas com doenças degenerativas cerebrais (além da minha própria experiência e de uma das outras integrantes) e seus contatos com todos os atores envolvidos no espectro dessa doença.

Ao final do dia, estávamos cansadas, mas com um MVP rodando e com 30 solicitações para o nosso trialSucesso.

Mas, o grande triunfo foi o aprendizado. E particularmente falando, eu não sabia que eu era capaz de desenvolver tantas funções diferentes, mediar conflitos, abrir minha cabeça para ouvir pessoas com opiniões contrárias as minhas e conseguir contribuir para uma causa tão fundamental em nossa sociedade que fica cada vez mais com a pirâmide etária invertida, tendo 100 mil casos de Alzheimer diagnosticados todos os anos.

Nesse meio do caminho, também descobri que minha avó, de 97 anos, está com Mal de Alzheimer e não apenas senil. E que essa confusão é perfeitamente comum! Ou seja, mais da metade dos casos não são diagnosticados porque familiares, como eu, não são evangelizados sobre o tema.

Isso tocou fundo em meu coração e talvez por isso eu tenha me jogado de corpo e alma no projeto. Mas, nem tudo são flores, não é mesmo?

Dia 3: a hora em que eu quis desistir

O último dia foi o de maior aprendizado e de muita dor. Cheguei com toda a garra do mundo para fazer acontecer.

Tivemos a palestra de como preparar um pitch e como equipe, decidimos que eu estava mais preparada para fazer a apresentação.

Nunca fiz um pitch em toda a minha vida. Sou escritora, acostumada a fazer contação de histórias, dar palestras sobre “Como escrever um livro” e também dou workshops sobre “Marketing de Conteúdo”. Todos os dias, me desafio a falar em público, dar minha cara a tapa e aprender cada vez mais com isso.

Até então, eu tinha considerado aquele um ambiente seguro para aprender e errar (eu odeio estar errada e ser julgada!). E foi exatamente o que aconteceu na hora do feedback do meu pré-pitch.

Me senti provocada, humilhada e totalmente para baixo. Foi porque eu não fui bem? Não. Eu sabia que não iria bem, não estávamos preparadas ainda. E as considerações da mentora foram bastante coerentes. Mas a maneira como foi explanada… Eu não estava pronta para isso!

O papel dela era o mercado. Que, muitas vezes, é duro e cruel. E grosseiro. Mas, ser grosseiro para mim não é uma opção (ingênua e sonhadora, talvez). O fato é que ela perguntou: “Você está feliz aqui?”. E eu não podia rebater, não podia responder a pergunta porque não era permitido. E isso me deixou com raiva.

Eu saí aos prantos da sala de avaliação e fui para o banheiro chorar. Eu estava sem os meus remédios há um dia (meu noivo estava trazendo para mim) e se não fosse minha irmã presente, que sabia o que fazer para eu não ter uma crise de ansiedade extrema, eu teria ido embora do evento e saído com uma péssima impressão de tudo.

Para quem não sabe, eu faço parte das mais de 2 milhões de pessoas que possuem Transtorno de Ansiedade Generalizada, TAG, (apenas casos diagnosticados e, no Brasil).

Isso significa que em situações de estresse ou que soltem algum gatilho mental ou emocional em mim (como a pergunta da mentora), podem fazer com que eu apresente sintomas semelhantes aos da síndrome do pânico, do transtorno obsessivo-compulsivo e outros tipos de ansiedade, como preocupação constante, agitação e dificuldade de concentração.

Sim, a ansiedade é o mal do século. Mas existem diversos graus, digamos assim. E eu sou um 10. Com remédios, eu consigo ficar um 7 e não existe cura.

Eu aceito isso. Eu vivo com isso – de maneira consciente – há mais de 7 anos. Entretanto, isso me fez pensar que eu era fraca (estava chorando na frente de todos os participantes e mentores do evento) e que eu não deveria estar ali. Afinal, é um ambiente de pressão e estresse – gatilhos fortíssimos para quem tem TAG.

Não fui embora. Fiquei, mas não estava conseguindo ser produtiva na minha equipe. E elas aceitaram, porque nenhuma concordou com a forma como fui tratada lá dentro.

Entretanto, não existe certo e errado nesses eventos. Cada um dá o melhor de si, cada um tem um papel a desempenhar e como 12% dos projetos criados ali continuam depois do final do evento, os mentores precisam ser duros, precisam nos preparar para dar um pitch digno de uma “apresentação de negócios”.

Mas, não fiquei calada. Conversei com a facilitadora do evento, que foi super gentil e entendeu meu ponto de vista e pediu desculpas. Ela então, me questionou: “mas por que você se coloca nessa situação se sabe que pode gerar um gatilho para você?”. E eu parei para pensar sobre isso.

Por que eu me coloco nessa situação?

Porque eu preciso. Como qualquer outra pessoa, eu também sou capaz de empreender, de desenvolver novos projetos, de ser feliz. Entretanto, TAG ataca diversas idades e pessoas, e muitas delas, não saem nem de casa por causa do comportamento de pessoas como a mentora. A culpa, obviamente, não é da mentora. Afinal, ela não pode ser responsabilizada sobre como uma pessoa irá agir devido às suas ações em um evento.

Eu represento uma classe e percebi isso ontem. Pessoas leem meus livros e dizem que deixaram de se matar por causa das minhas palavras ou que decidiram dar a cara ao mundo por causa de mim.

Isso me motiva. Eu não me motivo pela dor, e sim pelo reforço positivo.

Eu não posso deixar de fazer coisas que “pessoas normais” fariam apenas porque os lugares não estão preparados para me receber.

O problema é que somos uma classe silenciosa. Não tem como olhar para mim e descobrir que tenho TAG. Assim, como não tem como olhar para outro alguém e dizer que ele tem depressão, síndrome do pânico ou alguma condição desse espectro. Diferentemente de alguém que é deficiente auditivo, e precisa de um representante em Libras ou um cadeirantes, que precisa de acessibilidade.

Algumas pessoas irão achar estranho que eu compare deficientes auditivos e cadeirantes com uma pessoa como eu, que aparentemente, é extremamente normal e não deveria reclamar de nada. A verdade é que muitas vezes, depressão, ansiedade e pânico são vistos como besteira e como pessoas exageradas. O que não é verdade.

A banalização do termo “ansiedade” é que levou a isso, mas já seria um outro texto.

A facilitadora me perguntou, então, o que eu pensava sobre tudo o que acabara de contar. E eu disse que é simples, queria ser tratada como está expresso na Constituição “tratar igual os iguais e desigual os desiguais”. Mas, na cabeça dela e até na minha, naquele momento, isso era impossível, pois iria atrapalhar toda a dinâmica do evento. É preciso ter pressão, gatilhos, estresse.

Isso significa que pessoas como eu não podem participar? Pensando melhor, a resposta é elas podem sim.

A verdade é que todos os empreendedores sofrem com as pressões e uma hora podem ceder a ansiedade, não mesmo nível, mas podem. E o que eles fazem? Trabalham a inteligência emocional. Mas, quem sofre com essas condições têm dificuldades exatamente de trabalhar a inteligência emocional e por isso, muitas vezes, como é o meu caso, tomam remédios que auxiliam os neurônios a realizarem as sinapses faltantes, por assim dizer.

E precisamos de terapia, educação emocional e blindagem.

Precisamos nos blindar contra comportamentos e situações externas que podem ser gatilhos para nós. Mas, nunca devemos desistir. É importante entender que somos capazes como qualquer outra pessoa, mas temos condições especiais.

E como atender essas condições sem atrapalhar a dinâmica do evento? Afinal, um intérprete ou um elevador são questões mais viáveis do que mudar a dinâmica comportamental do evento, certo? Certíssimo.

Mas hoje me veio ầ cabeça uma sugestão: e se fosse incluído um workshop sobre inteligência emocional e gestão da emoção, assim como falamos de MVP, Pitch e validação do problema e solução? Além disso, e se existisse uma terapeuta ou psicóloga a postos para que pessoas como eu, pudessem recorrer caso algum gatilho fosse acionado? Elas saberiam o que fazer naquela hora. Se minha irmã não estivesse lá, com certeza eu teria ido embora sem falar com ninguém e nenhum dos envolvidos saberia o que se passou e meu time seria afetado (o que, confesso, não foi profissional da minha parte, pois eu não podia abandonar meu time naquele momento).

Profissionais capacitados e uma evangelização sobre o tema são um começo. Além disso, preparam o emocional dos participantes para o que está por vir. E isso é fundamental. Muitas pessoas acreditam que sentimentos e emoções são algo a esconder e que não estão ligadas ao empreendedorismo. Eu discordo. Mas, afinal, sou uma artista, acima de tudo.

Como terminou tudo isso? Eu fiz as pazes com a mentora (afinal, obviamente não foi pessoal e ela é uma profissional incrível e admirável) e a agradeci no final, pois cresci muito com a sua contribuição. Meu time decidiu que eu deveria apresentar, pois era a mais apta. E, contra tudo dentro de mim me dizendo para não fazer isso, eu fui. Mais uma vez, eu queria representar a minha classe e mostrar que eu era capaz. E mais do que isso, fazer as pessoas se apaixonarem pelo projeto.

Foi uma sensação de dever cumprido. Eu me superei no meu pitch, muito melhor do que o primeiro, e consegui falar tudo o que precisava sobre a Memorizze. Minhas colegas me abraçaram e me parabenizaram. E todos os participantes e mentores pareceram comovidos com a minha história, pois ela acabou vindo à tona durante o evento. O que foi bom, pois traz uma iluminação sobre um assunto que precisa ser abordado, assim como o Alzheimer, causa que estávamos defendendo ontem à noite e que continuamos a defender.

Ganhamos o primeiro lugar e isso foi ainda mais motivador. Eu me superei. Eu superei mais um obstáculo, mais um desafio e evangelizei mais algumas pessoas sobre TAG. Em um evento de educação empreendedora para mulheres!

Com certeza, mudou minha percepção sobre negócios, sobre não acreditar que sou uma vítima e que, sempre, é possível participar do que queremos. O evento era sobre o empoderamento da mulher, mas eu aprendi sobre empoderamento em geral, de uma classe até então silenciosa e que nem eu sabia que poderia impactar tantos corações e mentes.

Eu recomendo o Startup Weekend Women Floripa para todas as minhas amigas e amigos (afinal, tem uma cota para homens também). E em novembro, vai acontecer o Startup Weekend Education em Palhoça. Quem sabe não nos vemos por lá também?

ps: todos os times foram campeões porque todos chegaram até o fim da jornada do Zero to Hero.

ps2: sim, eu usei a camiseta ao contrário durante todo o terceiro dia e nem percebi!

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